quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Pela ponta dos pés

      Estava ensolarado, eu confesso. Porém, ela era fria, gélida e encantadoramente fascinante e me convidava a experimenta-la . Cinco de meus sentidos foram tomados pela beleza de seu canto, estremecia-me, atordoava-me, seduzia-me de modo que não fui capaz de me conter e fui ao seu encontro. Sentei-me um pouco distante e pude apenas ouvir sussurros muito rápidos, contidos e constantes. Respirei fundo, senti-me uno a ela e pude entender a sua mensagem; ela era persistente, corajosa e de uma sincronicidade e imensidão, que embora tendo a visto em outras épocas, nunca até então havia notado o quão profunda ela era. Aproximei-me um pouco mais e notei sua cor, ela era de tom marrom, um pouco avermelhada, muitos seres a parasitavam e ela não se importava em recebê-los. Atrevi-me, educadamente inseri a ponta de meus pés em seu íntimo e fui repelida pela impotência de quem sou; ainda não estava preparada para experimenta-la e então decidi que naquele dia, eu iria somente observa-la, ouvi-la e admira-la. Permaneci com ela até que o sol se pusesse e eu pudesse contemplar ao menos o meio ciclo, eu estava fascinada pela maneira de como sua presença era respeitada por todos, até pelas estrelas - que a usavam de espelho durante a noite.                    

...Continua.


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